Variedades

Rolling Stones, tapioca, amor e várzea por Marcelo Mendez

Das coisas que enaltecem o que há de belo no mundo, do que torna a poesia possível decerto uma delas, das mais divinas é o sol que banha o domingo pela manhã. Pouco importa se depois choverá aos cântaros, se fará todo frio do inverno da Finlândia…

Se por alguns instantes do domingo um feixe de sol aparecer, então o que há de onírico na existência humana será plena. Assim se fez no último domingo. Acordei preguiçoso, meio sem vontade de acordar não por preguiça, nem por má vontade. Queria que a noite anterior não tivesse acabado por puro charme, mas aí, tinha a Várzea pra cobrir.

Abri o olho como pude, me levantei, procurei por minha camisa amarela do Giallos e nada. Enquanto procurava, escutava riffs de guitarras vindo da outra parte da casa e então segui o rock. Parei na porta cozinha;

Ali cruzei o braço, sorri e vi o que salva a vida de todo e qualquer homem de pouca fé…

Ao som de “Midnight Rambler” dos Stones, vestida só com minha pobre, velha e agora divina camisa amarela do Giallos, ela fazia o café da manhã dançando lindamente, profanamente, epicamente, em curvas mirabolantes, diabólicas e imortais.

A cintura daquela mulher em meio às guitarradas de Keith Richards era 2 mil vezes melhor de se ver do que qualquer paraíso que fosse.

O Rambler da meia noite naquela cozinha me fulminando com um sorriso bronzeado, de cabelos pretos e cara de Dina Sfat!

“Já vai, Nêgo? Toma café…”.

“To atrasado, tenho que ir até São Bernardo…”

“Você volta à noite?”.

“Se eu prestasse alguma coisa ficaria todas as noites. Mas to aprendendo. Volto pra janta…”

Ela riu e falou:

“Tá. Me beija a boca antes de ir embora, passa no mercado na volta, traz uma massa pra tapioca pra gente fazer a noite”.

Obedeci. Beijei, peguei meus óculos escuros e prometi não esquecer a massa pra tal da tapioca. Tomei chão…

Pelo vidro do trólebus a caminho do campo via o mundo passando, ainda Stones, Let’s Spend Night Togheter… Respirei o ar que havia dela em mim e não consegui pensar muito em outra coisa. Em flashes teimosos de responsabilidade, me vinha à mente a coisa de saber que ali haveria uma semifinal de campeonato, um baita jogo entre DER x Nacional da Vila Vivaldi, a final do principal campeonato de várzea da cidade de São Bernardo.

Cheguei no Estádio Primeiro de Maio e decidi fazer diferente; Não iria até o campo para cobrir o jogo la de dentro como de costume. Fui até as arquibancadas e no meio de todo aquele povo me fiz mais um, mais um deles, o que na verdade sou de fato.

De um cantinho da arquibancada, por detrás dos óculos escuros eu vi todas as festas, todas as rezas pagãs, as torcidas e seus cânticos, seus sonhos a miúde estando por pouco mais de 90 para se realizar ou não. Em caso de não, na várzea, frustração alguma dura por muito tempo. Elas são sufocadas por alegrias, refrões de sambas, funks suingados e outros drinks psicodélicos.

Em campo, o Nacional, o tradicional time da Vila Vivaldi, bateu o não menos tradicional DER por 2×0 e conquistou o titulo da cidade em meio a uma festa que em tempos duros e recrudescidos, ousou ser genuinamente do povo. Sim, do povo. O povo que não quer comprar pay per view pra ver futebol do sofá, que não pode pagar 100 pratas pra ver jogo ruim, que não quer obedecer os stewards templários modernos…

Festa do Povo que é de fato, o Povo.

Olhando para eles, para a festa da torcida azul do Nacional de Vila Vivaldi, me vi envolto a outros pensamentos que me acometiam o juízo junto da necessidade de comprar massa para tapioca que ela pediu. Pensamentos…

Em meio a tantas coisas podres do futebol das grandes corporações, a Várzea sempre se coloca como a contra mola que resiste, que insiste em resistir ante a tudo que à alma não é nobre.

O Futebol de Várzea é feito de fé, sonho, garra e amor sempre. Em sua própria essência já é por si só edificante e o seu entorno de riquezas nos propicia cenas maravilhosas como essas da final em São Bernardo com o estádio tomado por 6 mil pessoas felizes. Todas as pessoas, felizes!

Parabenizo o Nacional pelo título e dedico a todos, todos os torcedores do domingo em São Bernardo, a crônica de hoje, com amor.

Porque o amor também pode ser um pacote de massa de tapioca.

Ou um domingo na Várzea…

FONTE: MARCELO MENDEZ

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