Chimamanda Ngozi Adichie em campanha pela moda nigeriana

A escritora feminista promove o design autoral no projeto Wear Nigerian

Cada palavra de Chimamanda Ngozi Adichie é um convite a pensar sobre a questões de gênero e de raça. A partir de agora, cada aparição pública também. É que a autora de livros como Americanah (título vencedor do National Books Critics Circle Award) e de discursos de cunho feminista (alguns tiveram trechos musicados por Beyoncé na canção Flawless) acaba de lançar a campanha Wear Nigerian.

Na pratica, é algo simples: ela se comprometeu a vestir roupas assinadas por seus conterrâneos em todos os eventos de que participa  – de premiações literárias internacionais a get-togethers da moda, como o aniversário de 70 anos da Dior em Paris. Os créditos são informados em sua conta de Instagram, @chimamanda_adichie. Esses movimentos, porém, significam bem mais do que um “look do dia”. Celebram o comprometimento com narrativas mais plurais sobre o vestir.

“Nas últimas semanas, comprei mais peças de marcas nigerianas do que jamais fiz no passado. Descobri novos nomes. Fui tomada de admiração por mulheres e homens que tocam seus negócios apesar dos inúmeros desafios. Estou particularmente focada em marcas que tenham interesse em vestir mulheres nigerianas.”

A empreitada custou alguns botões trocados (em função de dificuldades técnicas e com matéria prima de algumas marcas), disse a escritora no comunicado da ação. Por outro lado, tem dado oportunidade para que um time de criadores (novos e consolidados) seja visto para além das fronteiras do país. Grifes como Ladunni Lambo, Gozel Green MsBeeFab ganharam uma vitrine especial: Chimamanda “se sente quem realmente é” quando veste as cores e modelagens nigerianas e estimula outras pessoas a tomarem decisões de moda mais conscientes – e com impacto econômico.

Roupas e histórias por um mundo mais diverso  

Moradora de Lagos, maior cidade da Nigéria, Chimamanda fez faculdade nos Estados Unidos. Foi lá, quando uma colega de quarto a recebeu com perguntas sobre seu país de origem, que tomou consciência sobre o desconhecimento de muitas pessoas sobre a África. Chimamanda disse, anos mais tarde, que atribuía essa postura à ausência de personagens e histórias da literatura que representassem a diversidade do continente. Ela mesma, por muito tempo, não se reconheceu nas páginas que lia.

“As coisas mudaram quando eu descobri os livros africanos. Não havia muitos disponíveis e eles não eram tão fáceis de encontrar como os livros estrangeiros. Mas devido a escritores como Chinua Achebe e Camara Laye eu passei por uma mudança mental em minha percepção sobre a literatura. Percebi que pessoas como eu, meninas com a pele cor de chocolate, cujos cabelos não poderiam formar rabos de cavalo, também poderiam existir na literatura. Comecei a escrever sobre coisas que eu reconhecia.”

A busca por criar um mundo mais diverso, que é um de seus motores na literatura, mantém-se no projeto Wear Nigerian, dessa vez com vistas à identidade fashion. Ao vestir-se de nomes locais, lembra o mundo que os designers nigerianos existem e podem marcar espaço no cenário internacional. Assim como os escritores que transformaram a sua percepção sobre a literatura, ajuda a salvar o mundo de uma história única sobre a moda.

FONTE: http://vogue.globo.com/Inspire-se/noticia/2017/08/chimamanda-ngozi-adichie-em-campanha-pela-moda-nigeriana.html

A nova era do bordado

Saiba como aprender desde técnicas tradicionais francesas até o bordado artístico contemporâneo com experts brasileiras.

Natalia Rios acaba de se mudar para seu novo ateliê na Vila Olímpia. Por lá, ela dá aulas de bordado para arquitetos, artistas plásticas, designers e estudantes de moda, entre eles homens e mulheres que já tinham muita ou nenhuma prática no ofício. Seu Atelier & Escola de Bordados surgiu depois de uma temporada em Paris, quando estudou na École Lesage, ligada à Maison Lesage, que produz bordados para a alta-costura desde 1924 e tem clientes como a Chanel. Apesar do estudo refinado, a ligação com a artesanalidade já estava presente em seu trabalho muito antes do foco na alta moda.

Em contato com as atividades manuais através de técnicas de sua família, que é de Rio Grande, ela cursou moda na esperança de conseguir produzir peças 100% artesanais. “Todos os meus trabalhos eram feitos à mão. Criava vestidos gigantes de crochê, por exemplo”, conta ela. Mesmo criando um ateliê de vestidos de noiva e festa com esse trabalho slow fashion, descobriu que sua paixão era, na verdade, a dedicação aos detalhes — e o alto nível de expertise que envolve esse lado da moda.

Quem assiste às produções dos bordados de casas tradicionais como a Chanel e a Dior, por exemplo, entende a hipnose do ofício, que leva tempo, prática e dedicação, itens que as roupas produzidas pelas grandes marcas de fast fashion não podem garantir. “Fiquei na Lesage 6 meses fazendo aula todos os dias. Dormia uma hora por noite. Mas não tinha sono, estava plena, aquilo me satisfazia. Foi um encontro de tudo o que eu desejava”, descreve Natalia.

Quando voltou ao Brasil, trabalhou com Sandro Barros, Fernanda Yamamoto e Emannuelle Junqueira. Com o ateliê, descobriu que além de produzir para marcas e designers, tinha a possibilidade de ensinar as técnicas da alta-costura e também de interpretar a cultura brasileira e sul-americana através do bordado contemporâneo. “Eu me especializei na técnica de Luneville, tradicional do norte da França, de 1810. Trouxe para cá misturando com outras técnicas”, descreve ela.

Seu curso profissionalizante, de 273 horas, é separado por uma introdução e oito níveis, que envolvem interpretações da cultura América do Sul, por exemplo, onde aparecem a lã e o feltro. “Cada um que passa por aqui, com sua própria bagagem, constrói sua própria visão disso tudo”, conta Natalia. Ela garante que todos podem conseguir bordar com perfeição: Beatrice Costa, estudante de moda da Belas Artes, começou o curso sem nunca ter produzido um bordado, hoje trabalha no ateliê e afirma: “penso até mesmo em trocar a tradicional profissão de estilista pelo bordado.”

Em parceria com a Swarovski, marca da qual é embaixadora no Brasil, Natalia em breve estará oferecendo versões de seu curso em faculdades de moda em São Paulo. Sobre a valorização da técnica mundialmente, ela finaliza: “acho que temos esse momento fast fashion, que é importante para que sempre estejamos atualizados. Mas talvez isso não nos satisfaça mais.”

O surgimento dos cursos de bordado que exploram tanto o emponderamento feminino como a customização das próprias roupas e a expressão artística são um exemplo desse novo momento e nova valorização do tempo. Principalmente na moda, as prioridades estão mudando.

 

Bordado empoderado

Bruna Antunes, de Porto Alegre, aprendeu a bordar com a avó, mas tinha deixado o ofício de lado durante a adolescência, só produzindo peças para presentear amigas e pessoas próximas. A relação com a artesanalidade mudou quando descobriu, lá em 2015, através do Instagram, meninas inglesas e americanas que estavam usando o bordado para expressar ideias feministas. “O Bordado Empoderado tem como objetivo unir mulheres interessadas nesse fazer manual, e que também tenham em comum o engajamento com o feminismo. Decidi criá-lo porque participava de vários grupos feministas em redes sociais e sentia falta de discussão presencial, de conhecer as pessoas por trás dos discursos”, conta ela. Em 18 meses de projeto ela já teve mais de 700 alunas.

Bruna aponta que as técnicas podem ser consideradas delicadas demais ou símbolo de passividade, mas na verdade não apenas reaparecem de forma importante na atualidade como resgatam uma história desconhecida do bordado: “ele contribui com a união das mulheres, pode diminuir a ansiedade e é expressão artística e política. Além disso, ao produzir peças do zero, com nossas próprias mãos e conhecimento, estamos praticando o mindfulness. O bordado também pode ser empoderador pois permite que cada pessoa veja em seus pontos um reflexo do momento em que vive”, descreve Bruna.

O curso mais popular de sua escola é o de Bordado Livre para Iniciantes, mas os cursos especiais, que podem envolver a criação de patches sustentáveis e como inserir a pintura no bordado também sempre tem demanda. “Vou criando de acordo com o que as alunas pedem e a partir do que minha criatividade permite”, finaliza.

Estúdio Ona

Priscila Casna sempre se envolveu com atividades manuais através de conexões familiares, mas foi depois de se formar em moda e trabalhar durante três anos com a designer Paula Raia que ela resgatou o contato com o bordado. “Sempre aprendi que o bordado é uma atividade introspectiva que nos permite uma lenta imersão em um universo onde a pressa do dia a dia cede lugar ao tempo das memórias, espaço propício à expressão da criatividade”, conta ela.

Foi a partir dessa perspectiva que ela criou o Estúdio Ona, no qual oferece oficinas de Processos Criativos para todas as idades. Através de pontos essenciais do bordado — mas sem gráficos ou desenhos tradicionais — ela explora também materiais e linhas diversos.

Além dos cursos, Priscila ainda aplica seu bordado na moda e conta que a técnica pode ser usada para as mais diversas expressões artísticas: recentemente ela criou uma colaboração com a marca Resgate Fashion, que recicla roupas que poderiam ser descartadas através de intervenções únicas. “Acredito que qualquer atividade manual tem um efeito terapêutico, que acaba automaticamente proporcionando um recolhimento natural, extremamente necessário nos tempos atuais”, finaliza.

 

Juliana Mota

“Bordar não é difícil. Sempre falo que é uma forma de expressão e que cada pessoa tem um jeito de se expressar através do bordado”, conta Juliana Mota. Designer por formação e sempre interessada pelas artes manuais, o bordado surgiu em sua vida durante a produção de um cenário para um curta de animação. “Comecei experimentando alguns pontos, vendo vídeos no youtube e me apaixonei!” As encomendas e seu projeto foram crescendo tanto — mesmo que sem planejamento. Hoje ela dá aulas e oficinas de bordado livre em diversos ateliês pelo Brasil.

Uma vez por mês ela dá aulas em uma oficina para iniciantes, e os temas das outras oficinas vão desde o bordado em roupas até como incorporar a caligrafia. Como saber se o bordado é para você? Ela conta que não existe regra: “muita gente participa dizendo que tirou um tempo só pra si, pra descansar a cabeça do trabalho, casa, problemas em geral. Tem algumas histórias muito emocionantes e me sinto muito motivada a dar aula e ajudar um pouquinho nesses processos”, conta Juliana.

 

Belô Cami

“O bordado, assim como a ilustração, não têm um limite muito claro. A união dos dois te dá infinitas possibilidades, seja em um trabalho com moda, seja em um trabalho no papel, seja em um objeto…”, conta Camila Belotti, ilustradora e criadora do Belô Cami. Ela conhecia o bordado desde pequena através de sua avó, mas foi há quatro anos que resgatou a técnica por interesse artístico. Em seu trabalho, ela criou uma interseção entre desenho e linhas que apaixona seus seguidores no Instagram.

“O bordado, como outros trabalhos manuais, é um resgate de tempo”, conta ela, que tem uma clara identidade visual nos seus bordados e já produziu bordados fashion para Emannuelle Junqueira e para Brennda Araujo (foto abaixo). Através dos seus cursos, ela faz com que seus alunos e alunas tentem explorar livremente a interseção entre e arte e o ofício. As próximas turmas, voltadas para essa união, começam em setembro e se dedicam durante dois meses nas acontecem em seu ateliê na Pompeia, em São Paulo.

Fonte: http://elle.abril.com.br/cultura/a-nova-era-do-bordado/

Previsão fashion: o que podemos esperar para o inverno 2018

WGSN prevê as tendências da próxima temporada

Os desfiles de Outono/ Inverno 2018 começam hoje, mas a WGSN já previu o que poderemos esperar da próxima temporada. Em um ambiente político conturbado, o Inverno 2018 pede mais que nunca por mudanças, e veremos os designers abordando parâmetros inovadores e novas formas de pensar.

Veremos conceitos pré-concebidos desaparecendo ainda mais, e provocações políticas e sociais se agravando. A ideia de individualidade continuará cada vez mais forte, se tornando a mensagem principal de toda a temporada – a ideia de que o consumidor contemporâneo se veste de acordo com suas próprias necessidades e personalidades.

Assim, prevemos alguns temas aparecendo com força essa temporada, como o Novo Utilitário, que traz uma atitude disruptiva, misturando o streetwear contemporâneo com a alfaiataria tradicional. O utilitário, muito inspirado na moda militar, aparecerá mais suave, com silhuetas sofisticadas que já vimos nas passarelas masculinas da Vetements, Versace, Joseph.

As formas, portanto, serão menos rígidas do que uniformes tradicionais, e ficarão mais

relaxadas e confortáveis, mas sem perder o toque utilitário, com elementos

funcionais e detalhes práticos que são chaves para criar esse look.

Outro tema que podemos esperar nos desfiles olha para a androgenia que dominou a moda nas últimas temporadas, desconstruindo e reconstruindo a feminilidade com um novo approach, mais relaxado. A Femme Moderne trará peças com proporções exageradas e shapes volumosos, em peças casuais que se inspiram no loungewear, mas não deixam de ser sofisticadas. A ideia de novas proporções é importante, e veremos um balanço entre o maximalismo e o minimalismo, com um luxo simplificado.

Estilistas e marcas provocarão a ideia atual de fronteiras fechadas e isolamento cultural promovida por líderes políticos, unindo ainda mais referências ocidentais e orientais. No tema Indochine, a influência romântica e dark da Era Vitoriana, presente na moda nas últimas 3 temporadas consecutivas, será misturada a elementos Orientais com shapes lineares e sedas acetinadas.

Sabemos que a moda é muito mais do que uma peça de roupa, e que tendências sempre surgem consequentes ao comportamento geral dos consumidores. Por isso, poderemos esperar uma temporada de desfiles mais engajada politicamente e cheia de mensagens importantes de serem ouvidas.

Fonte: http://estilo.abril.com.br/moda/previsao-fashion-o-que-podemos-esperar-para-o-inverno-2018/

Por trás da estamparia de Fernanda Yamamoto

Fernanda Yamamoto é uma das designers mais autorais do Brasil. Conhecida por seu trabalho intelectual que, em geral, envolve referências cult reinterpretadas em volumes, texturas e cores inusitadas, a estilista decidiu convocar Clarisse Romeiro, do Atelier Veredas, para colaborar com a marca por meio de uma estampa. A designer convidada, no caso, é especialista no assunto. Profundamente influenciada pela cultura brasileira, ela decidiu colaborar com um desenho de manga — sim, a fruta! — que foi adaptado para as peças de Yamamoto.

“Eu conheci o trabalho da Clarisse quando ela fez uma coleção sobre o Nordeste. Isso na mesma época em que fiz a coleção Historias Rendadas com renda renascença. Dessa vez, achei que seria interessante trazer o olhar dela para a estamparia” diz a criativa que tem o hábito de chamar outros artistas para somar diferentes visões à sua. “Na estamparia conseguimos dar “escala”, a produção é mais eficiente e consequentemente temos um produto com preços mais competitivos.” As peças com a print saem por valores até R$ 1 390, sendo que os itens da marca custam até R$ 1 690.

Sobre sua ausência neste SPFW, Fernanda diz que, com a mudança de calendário, preferiu pular esta temporada e manter a apresentação de inverno, uma vez ao ano, como tem feito há tempos. “Tenho mais tempo para amadurecer e me aprofundar nas ideias. Quero trazer um trabalho mais relevante: mais qualidade e não quantidade“, finaliza.

 

 

FONTE: https://elle.abril.com.br/moda/por-tras-da-estamparia-de-fernanda-yamamoto/